Laboratório São Marcos

Reabilitação Neurológica Pós-AVC: Guia completo para uma recuperação eficaz

O instante em que um Acidente Vascular Cerebral ocorre é um divisor de águas na vida de qualquer indivíduo e de seu núcleo familiar. 
Infográfico educativo sobre a jornada da neurorreabilitação pós-AVC, destacando a neuroplasticidade, resiliência cerebral e uso de tecnologias robóticas e abordagens multidisciplinares na recuperação de pacientes.

Em um segundo, a autonomia é substituída pela incerteza, e habilidades que antes eram automáticas como caminhar, falar ou simplesmente sorrir tornam-se desafios monumentais. 
No entanto, o que a ciência moderna revela é que o cérebro humano possui uma resiliência extraordinária, capaz de se remodelar e encontrar novos caminhos para a funcionalidade através de um processo rigoroso e bem estruturado de reabilitação neurológica pós-AVC.

Se você ou alguém que você ama está enfrentando as sequelas de um derrame, saiba que o diagnóstico inicial não é o destino final. 

Estamos vivendo uma era de ouro na neurorreabilitação, onde a combinação de neurociência avançada, tecnologias robóticas e abordagens multidisciplinares está permitindo que pacientes alcancem níveis de independência que, há poucas décadas, seriam considerados impossíveis. 

Este conteúdo foi elaborado para ser o recurso mais completo e detalhado disponível, oferecendo não apenas esperança, mas um roteiro técnico e prático para navegar cada fase da recuperação.

Nesta análise profunda, exploraremos como a neuroplasticidade funciona como o motor da mudança cerebral, as diferenças críticas entre as fases aguda e crônica da recuperação e como as inovações em neuromodulação estão acelerando os resultados clínicos. 

Ao compreender os mecanismos biológicos e as estratégias terapêuticas mais eficazes, você estará munido do conhecimento necessário para maximizar as chances de uma recuperação plena. 

Prepare-se para mergulhar em um conteúdo que transforma a complexidade técnica em passos acionáveis para retomar a qualidade de vida.


O panorama epidemiológico do AVC no Brasil e o impacto na saúde pública

Para compreender a magnitude da reabilitação neurológica pós-AVC, é imperativo analisar os dados estatísticos que contextualizam essa condição como uma das maiores crises de saúde pública do Brasil. 

Infográfico sobre o panorama epidemiológico do AVC no Brasil, com dados de mortalidade, tipos de AVC, impacto socioeconômico e importância da reabilitação neuro-pós-AVC.

O Acidente Vascular Cerebral permanece como a principal causa de incapacidade funcional no mundo e a segunda maior causa de morte em território nacional. 

A análise dos registros civis e dos dados oficiais do Ministério da Saúde revela uma tendência alarmante na mortalidade e na morbidade associadas a esta patologia.

No ano de 2024, os dados do TABNET-SUS indicaram que o Brasil registrou 106.501 mortes por AVC, superando os óbitos por infarto agudo do miocárdio em diversos recortes metodológicos. 

Essa estatística abrange uma gama complexa de condições, incluindo o infarto cerebral (isquêmico), a hemorragia intraparenquimatosa (hemorrágico) e a hemorragia subaracnoidea. 

O impacto não se restringe apenas à mortalidade; a carga de sobrevivência com sequelas é vasta. 

Aproximadamente 70% das pessoas que sofrem um AVC não conseguem retornar às suas atividades laborais, e cerca de 50% tornam-se dependentes de cuidadores para as atividades mais básicas do cotidiano.

Indicador de Mortalidade no Brasil (2024)Número de Óbitos
Acidente Vascular Cerebral (Total CIDs I60-I69)106.501
Infarto Agudo do Miocárdio / Doença Coronariana119.687
AVC Isquêmico e Hemorrágico (Dados Registro Civil)85.959
*Fonte: TABNET-SUS e CRC Brasil.

A incidência de AVC tem demonstrado um crescimento preocupante entre a população jovem. 

Atualmente, cerca de 10% dos casos ocorrem em pacientes com menos de 55 anos, um fenômeno que a Organização Mundial de AVC (World Stroke Organization) projeta como uma tendência global onde uma em cada seis pessoas terá um evento cerebrovascular ao longo da vida. 

Esse cenário exige que a reabilitação neurológica pós-AVC seja encarada não apenas como um serviço complementar, mas como um pilar essencial do sistema de saúde, visando a redução do custo social e econômico das incapacidades permanentes.


Fisiopatologia e classificação: As bases do diagnóstico urgente

O sucesso da reabilitação neurológica pós-AVC começa com o entendimento claro da natureza do evento sofrido pelo paciente. 

Clinicamente, o AVC é definido como um déficit neurológico súbito resultante de um compromisso nos vasos sanguíneos cerebrais, podendo ser classificado em dois tipos principais: isquêmico e hemorrágico.

O AVC isquêmico é o tipo mais prevalente, correspondendo a aproximadamente 85% dos casos registrados.

Ele ocorre quando há a obstrução de uma artéria cerebral, impedindo a passagem de oxigênio e nutrientes para as células nervosas. 

Essa obstrução pode ser causada por um trombo (formado no próprio local da artéria) ou por um êmbolo (um coágulo que viaja de outra parte do corpo, frequentemente do coração). 

Dentro do subgrupo isquêmico, a medicina identifica quatro etiologias principais que determinam o manejo clínico:

  • Aterotrombótico: Provocado pela formação de placas de aterosclerose em grandes vasos.

  • Cardioembólico: Quando o êmbolo se origina em câmaras cardíacas, comum em casos de fibrilação atrial.

  • De outra etiologia: Frequentemente observado em jovens, relacionado a distúrbios de coagulação ou vasculites.

  • Criptogênico: Quando a causa permanece indeterminada mesmo após investigação exaustiva.

Por outro lado, o AVC hemorrágico, embora represente apenas 15% dos casos, possui uma taxa de mortalidade e gravidade de sequelas superior. 

Ele é causado pela ruptura de um vaso sanguíneo, levando ao extravasamento de sangue para o interior do tecido cerebral (hemorragia intracerebral) ou para o espaço subaracnoideo. 

A pressão súbita exercida pelo sangue acumulado causa danos mecânicos e químicos imediatos aos neurônios circundantes.


Tipo de AVCFrequência RelativaMecanismo Principal
Isquêmico85%Obstrução arterial por trombo ou êmbolo.
Hemorrágico15%Ruptura vascular e extravasamento de sangue.
Ataque Isquêmico Transitório (AIT)VariávelObstrução temporária com reversão em minutos.

*Fonte: Ministério da saúde e sociedade Brasileira de doenças cerebrovasculares.

O Ataque Isquêmico Transitório (AIT), popularmente conhecido como "ameaça de derrame", é um sinal de alerta crítico que ocorre em cerca de 30% dos pacientes antes de um evento definitivo. 

Embora os sintomas revertam-se espontaneamente em pouco tempo, o risco de um AVC completo ocorrer no mesmo dia é de aproximadamente 9%, exigindo atenção médica imediata.


A ciência da neuroplasticidade: O motor da recuperação cerebral

O conceito que sustenta toda a reabilitação neurológica pós-AVC é a neuroplasticidade.

Infográfico educativo sobre neuroplasticidade e recuperação cerebral pós-AVC, mostrando como áreas saudáveis do cérebro podem assumir funções das regiões lesionadas, com destaque para neuroplasticidade espontânea e induzida.

Trata-se da capacidade inerente do cérebro de se reorganizar estruturalmente e funcionalmente em resposta a novos estímulos e lesões. 

Quando uma área do cérebro morre devido à falta de sangue, as funções que ela coordenava são perdidas. 

No entanto, o cérebro não é um órgão estático; ele possui a habilidade de recrutar áreas saudáveis e "ensiná-las" a assumir as tarefas das regiões lesionadas.

Existem dois fenômenos plásticos essenciais após o AVC: a neuroplasticidade espontânea e a induzida. 

A plasticidade espontânea ocorre nas primeiras semanas após o evento, quando o cérebro entra em um estado de "janela crítica" de maior sensibilidade a estímulos externos, facilitando a recuperação natural. 

Já a neuroplasticidade induzida é o resultado direto de intervenções terapêuticas intensivas, como fisioterapia e fonoaudiologia, que forçam o sistema nervoso a criar novas conexões sinápticas e reforçar circuitos neurais alternativos.


A zona de penumbra e o recrutamento neural

Ao redor da área central da lesão (núcleo isquêmico), existe uma região chamada "zona de penumbra". 

Nesta área, os neurônios estão vivos, mas funcionalmente silenciados devido à redução parcial do fluxo sanguíneo. 

O objetivo primordial da reabilitação neurológica pós-AVC na fase aguda é salvar esses neurônios e transformá-los em parte ativa da nova rede funcional do paciente. 

Através do treino baseado em tarefas atividades repetitivas e orientadas a objetivos reais o cérebro ativa áreas motoras suplementares e córtex pré-motor, compensando a perda do córtex motor primário.

A evidência clínica demonstra que a repetição intensiva é a chave para essa mudança.

Estudos apontam que o treinamento de membros superiores baseado em tarefas funcionais diárias promove uma ativação robusta das áreas cerebrais preservadas, resultando em melhoras estatisticamente significativas na força e na destreza motora. 

No entanto, a ciência ainda busca determinar o tempo preciso para o retorno total à autonomia, ressaltando que cada cérebro responde de maneira única ao processo de reabilitação.


Fases da reabilitação: Cronograma e marcos de evolução

A jornada de reabilitação neurológica pós-AVC não é um evento único, mas um processo contínuo dividido em fases clínicas que exigem abordagens distintas. 

O tempo é o fator mais crítico: "tempo perdido é cérebro perdido".


Fase aguda e subaguda: O início do tratamento

A reabilitação deve começar idealmente dentro das primeiras 48 horas após o AVC, desde que o paciente esteja clinicamente estável. 

Nesta fase inicial, que se estende pelos primeiros três meses (fase subaguda), a velocidade de recuperação é máxima. 

Os objetivos principais focam na mobilização precoce, prevenção de complicações como pneumonias aspirativas e tromboses, e o início do treino de equilíbrio e deglutição.


Fase crônica: Superando o platô de recuperação

Após seis meses do evento cerebrovascular, o paciente entra na fase crônica. 

É um mito comum acreditar que a recuperação cessa após esse período. 

Embora o ritmo de ganhos funcionais diminua, a neuroplasticidade continua ativa por meses ou até anos. 

Nesta etapa, o foco da reabilitação neurológica pós-AVC desloca-se para o refinamento da marcha, a reintegração social e o manejo de sequelas de longo prazo, como a espasticidade severa.


Fase da RecuperaçãoTempo EstimadoFoco da Intervenção
Aguda0 a 2 semanasEstabilização, posicionamento no leito e estímulos sensoriais básicos.
Subaguda2 semanas a 6 mesesTreinamento intensivo de marcha, fala e independência em atividades de vida diária (AVDs).
CrônicaApós 6 mesesRefinamento motor, tratamento da espasticidade e adaptação ocupacional.

* Fonte: SBAVC e diretrizes do ministério da saúde.


O papel da fisioterapia neurofuncional e da robótica

A fisioterapia neurofuncional é o braço executivo da reabilitação neurológica pós-AVC.

Diferente da fisioterapia convencional, ela utiliza conhecimentos profundos sobre o controle motor e o sistema nervoso para induzir a recuperação de movimentos complexos. 

Atualmente, a integração de tecnologia de ponta tem revolucionado essa prática, permitindo resultados mais rápidos e precisos.


Neurorreabilitação robótica e exoesqueletos

Uma das maiores inovações na área é a neurorreabilitação robótica. 

Equipamentos como exoesqueletos de membros inferiores e luvas robóticas permitem que o paciente realize milhares de repetições de um movimento com precisão absoluta, algo impossível de ser alcançado manualmente por um terapeuta. 

Esses robôs utilizam algoritmos de dinâmica direta para sintonizar a assistência de acordo com a força residual do paciente, aumentando a segurança e reduzindo o tempo de internação. 

O uso de equipamentos como o Erigo® na fase subaguda tem demonstrado ser um diferencial na recuperação da marcha e na estabilização cardiovascular.


Neuromodulação não Invasiva: TMS e tDCS

A neuromodulação representa a fronteira final da reabilitação neurológica pós-AVC. 

Através da Estimulação Magnética Transcraniana (TMS) ou da Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (tDCS), os clínicos conseguem "despertar" áreas do cérebro que estão subativas após o AVC ou "acalmar" o hemisfério saudável que pode estar inibindo excessivamente o lado lesionado. 

O estudo Titan Trial, por exemplo, utiliza a tDCS para tratar a negligência espacial unilateral, uma sequela onde o paciente "esquece" a existência de um dos lados do seu campo visual e corporal, dificultando drasticamente a caminhada e a segurança diária.


Tecnologia AssistivaMecanismo de AçãoIndicação Principal
Luva RobóticaRepetição assistida de movimentos de pinça e preensão.Recuperação da função das mãos e braços.
ExoesqueletoAssistência robótica na marcha e postura.Treino de caminhada em pacientes com hemiplegia.
TMS / tDCSModulação da excitabilidade cortical por campos magnéticos/elétricos.Melhora da plasticidade neural e tratamento de negligência.
Realidade VirtualBiofeedback visual em ambientes imersivos.Equilíbrio, coordenação motora e engajamento do paciente.

* Fonte: Clínica Prosense e FAPESP.


Fonoaudiologia e terapia ocupacional: Resgatando a dignidade

A reabilitação neurológica pós-AVC seria incompleta sem a atuação vital da fonoaudiologia e da terapia ocupacional. 

Enquanto a fisioterapia foca na locomoção, essas especialidades focam na comunicação, na nutrição segura e na autonomia diária.

A fonoaudiologia atua em dois pilares críticos: a afasia (distúrbio de linguagem) e a disfagia (dificuldade de engolir). 

A afasia pode isolar o paciente do convívio social, tornando essencial o uso de métodos visuais e auditivos precoces para restaurar a fala ou encontrar meios alternativos de comunicação. 

Já a disfagia é uma das sequelas mais perigosas, podendo levar a pneumonias aspirativas silenciosas. 

O fonoaudiólogo utiliza manobras de treinamento muscular e adaptações na consistência da dieta para garantir que o paciente se alimente sem riscos.

A terapia ocupacional, por sua vez, é a especialidade que adapta o mundo ao paciente. 

O objetivo é restabelecer a independência nas Atividades de Vida Diária (AVDs), como tomar banho, vestir-se e comer sozinho. 

Terapeutas ocupacionais frequentemente utilizam a Terapia de Contensão Induzida, onde o membro saudável é temporariamente restrito para forçar o cérebro a utilizar e recuperar o membro afetado. 

Além disso, a confecção de órteses personalizadas por impressão 3D permite que pacientes com deformidades causadas pela espasticidade mantenham uma postura funcional.


Nutrição e dieta na reabilitação: Alimentos que protegem o cérebro

O que o paciente ingere após um AVC tem um impacto direto na velocidade da neuroplasticidade. 

A dieta não serve apenas para controlar fatores de risco como hipertensão e diabetes, mas também para fornecer os tijolos bioquímicos necessários para a reconstrução das sinapses.

A ciência recomenda uma dieta rica em Ômega-3, especificamente o ácido alfa-linolênico (ALA), o EPA e o DHA, que possuem propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras. 

O azeite de oliva extra virgem é um aliado poderoso, pois ajuda na produção de apolipoproteínas que reduzem o risco de novas obstruções vasculares. 

O consumo de ovos é incentivado pela presença de colina, precursora da acetilcolina, um neurotransmissor essencial para a memória e o controle muscular.


Nutriente ChaveFonte AlimentarImpacto Neurológico
Ômega-3Peixes gordos, linhaça, chia.Redução da neuroinflamação e suporte às membranas neurais.
Vitamina ENozes, sementes, abacate.Proteção antioxidante contra danos oxidativos pós-isquemia.
Vitamina B12 e FolatoCarnes magras, vegetais verdes escuros.Redução dos níveis de homocisteína (fator de risco para novo AVC).
ColinaOvos, fígado, soja.Melhora da função cognitiva e transmissão neuromuscular.

* Fonte: Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares e estudos de nutrição neurológica.


O controle do sódio é a regra de ouro na prevenção secundária. 

O excesso de sal eleva a pressão arterial, que é o principal desencadeador de novos eventos isquêmicos e hemorrágicos. 

Além disso, é fundamental evitar a perda de massa magra (sarcopenia) durante a reabilitação neurológica pós-AVC, garantindo que o paciente tenha força suficiente para realizar os exercícios de fisioterapia intensiva.


Saúde mental e depressão Pós-AVC: O obstáculo invisível

Um dos maiores desafios da reabilitação neurológica pós-AVC é a Depressão Pós-AVC (DPAVC), que afeta uma parcela significativa dos sobreviventes. 


Infográfico educativo sobre saúde mental e depressão pós-AVC, explicando causas biológicas, sinais de alerta, impacto na recuperação e importância do apoio psicológico e ao cuidador.


A depressão neste contexto não é apenas uma reação emocional à perda de autonomia, mas muitas vezes uma consequência biológica direta da lesão em áreas cerebrais responsáveis pela regulação do humor.

Pacientes com DPAVC apresentam uma recuperação funcional significativamente mais lenta e menor adesão aos tratamentos. 

A presença de sintomas depressivos no primeiro mês após o AVC pode aumentar o risco de mortalidade em até duas vezes nos dois anos subsequentes. 

Os sinais de alerta incluem apatia, desesperança, falta de prazer em atividades antes apreciadas e ideação suicida. 

O tratamento deve envolver suporte psicológico especializado, escuta ativa da família e, em muitos casos, intervenção farmacológica sob supervisão do neurologista ou psiquiatra.

O suporte emocional deve estender-se também aos cuidadores. 

Cuidar de uma pessoa com sequelas graves de AVC é uma tarefa que gera altos níveis de estresse, isolamento social e exaustão física. 

Cuidadores que não cuidam da própria saúde mental têm maior probabilidade de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão, o que compromete a qualidade da assistência prestada ao paciente.


Adaptação do ambiente domiciliar: Segurança e autonomia

O retorno para casa após a alta hospitalar é um momento de grande ansiedade. 

Para que a reabilitação neurológica pós-AVC continue de forma eficaz, o ambiente doméstico precisa ser adaptado para evitar o risco de quedas, que são extremamente comuns devido ao déficit de equilíbrio e perda de força em um dos lados do corpo (hemiparesia).


Modificações práticas no banheiro e quartos

O banheiro é o local de maior risco na residência. 

É indispensável a instalação de barras de apoio laterais no vaso sanitário e dentro do box. 

O uso de cadeiras de banho com pés antiderrapantes permite que o paciente realize sua higiene com segurança e menor esforço físico. 

Nos quartos e corredores, a regra principal é a remoção de tapetes, passadeiras e fios soltos que podem causar tropeços. 

A iluminação deve ser abundante, especialmente no trajeto entre o quarto e o banheiro durante a noite.


O uso de cores e orientação espacial

Uma estratégia interessante de reabilitação neurológica pós-AVC no domicílio é o uso de fitas coloridas no chão para ajudar na orientação espacial. 

Pacientes com negligência unilateral ou alterações visuais podem beneficiar-se de estímulos visuais vibrantes que indiquem o caminho correto ou alertem para obstáculos. 

Além disso, a organização dos medicamentos em caixas identificadas por cores ou horários facilita o desenvolvimento da autonomia do paciente e diminui o risco de erros fatais.


Exercícios para fazer em casa: Mantendo o estímulo diário

A reabilitação neurológica pós-AVC não pode limitar-se apenas às sessões clínicas com profissionais. 

O cérebro precisa de estímulo constante. 

"Usar ou perder" é uma lei fundamental da neurociência: se o paciente parar de tentar usar o lado afetado, o cérebro irá deletar aquelas conexões motoras.


Exercícios de transferência e posicionamento

  • Levantar e sentar: O paciente deve praticar o ato de levantar da cadeira apoiando o peso em ambas as pernas, evitando puxar apenas pelo braço saudável. O cuidador deve dar suporte pelo tronco, nunca puxando o ombro afetado, que é uma região vulnerável a luxações e dores crônicas.

  • Estimulação sensorial: Passar diferentes texturas (algodão, escovas macias) no lado afetado ajuda o cérebro a recuperar a noção de posição e tato.

  • Higiene oral: Tentar segurar a escova de dentes com a mão afetada, mesmo que necessite de auxílio inicial, é um excelente exercício de coordenação motora fina.

Atividade domésticaBenefício terapêuticoObservação de segurança
Pentear o cabelo com o lado afetado.Amplitude de movimento do ombro e cotovelo.Evitar movimentos bruscos que causem dor no ombro.
Caminhar pequenos trajetos com apoio.Equilíbrio e resistência muscular.Usar sempre calçados antiderrapantes que não saiam do pé.
Separar grãos ou moedas.Coordenação motora fina e pinça.Supervisão necessária para evitar fadiga excessiva.
Nomear objetos da cozinha.Estímulo para pacientes com afasia leve.Manter a calma e respeitar o tempo de fala do paciente.

* Fonte: Associações de Pacientes de AVC e Canais Especializados em Fisioterapia.


Diretrizes de atenção no SUS e políticas públicas

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diretrizes específicas para a reabilitação de pessoas com AVC. 

O Ministério da Saúde estabelece que a assistência deve ser prestada nos Centros Especializados em Reabilitação (CERs), onde equipes multiprofissionais realizam o acompanhamento contínuo após a alta hospitalar.

Os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) orientam o uso de medicamentos como trombolíticos na fase aguda e o manejo de sequelas através de órteses e toxina botulínica para espasticidade. 

É fundamental que familiares busquem as Unidades Básicas de Saúde para encaminhamento aos CERs, garantindo que o paciente tenha acesso aos direitos previstos por lei, como o recebimento de meios auxiliares de locomoção (cadeiras de rodas, andadores e bengalas).


Conclusão: O caminho para uma vida após o AVC

A reabilitação neurológica pós-AVC é uma maratona, não uma corrida de cem metros. 

Ela exige paciência, resiliência e a compreensão de que cada pequeno ganho funcional é uma vitória monumental na neurobiologia do paciente. 

Através deste guia, vimos que a ciência da neuroplasticidade, aliada a tecnologias como a robótica e a neuromodulação, oferece ferramentas sem precedentes para a recuperação.

No entanto, o sucesso final depende da integração entre o tratamento clínico e o amoroso suporte familiar. 

O ambiente domiciliar seguro, a nutrição adequada e o cuidado com a saúde mental formam o tripé que sustenta a independência a longo prazo. 

O AVC pode ter alterado a trajetória de vida de uma pessoa, mas com as estratégias certas, a reabilitação é o caminho para escrever um novo capítulo cheio de autonomia e qualidade de vida.

Agende uma avaliação com um especialista em neurorreabilitação hoje mesmo e comece a transformar o futuro! Se este conteúdo foi útil, compartilhe com outras famílias que enfrentam este desafio e ajude a espalhar o conhecimento que salva vidas.


Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Qual é o melhor momento para iniciar a reabilitação neurológica pós-AVC? 

O início deve ser o mais precoce possível, idealmente nas primeiras 48 horas após a estabilização clínica, ainda no ambiente hospitalar. 

Quanto mais cedo o cérebro recebe estímulos, maiores são as chances de salvar a "zona de penumbra" e estimular a neuroplasticidade.


2. É possível recuperar os movimentos se o AVC ocorreu há mais de um ano? 

Sim. Embora a fase subaguda (até 6 meses) seja a mais acelerada, o cérebro humano mantém a capacidade de plasticidade na fase crônica. 

Técnicas intensivas, robótica e neuromodulação podem gerar ganhos funcionais significativos mesmo anos após o evento.


3. Como a toxina botulínica (botox) ajuda na reabilitação? 

A toxina botulínica é usada para tratar a espasticidade, que é a rigidez excessiva dos músculos. 

Ao relaxar o músculo contraído, ela facilita a realização dos exercícios de fisioterapia, melhora a higiene do membro e reduz a dor, permitindo uma reabilitação neurológica pós-AVC mais eficaz.


4. A família pode fazer os exercícios sem supervisão profissional?

A supervisão de um fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional é essencial para criar um plano seguro e evitar movimentos compensatórios prejudiciais. 

No entanto, a família deve ser treinada para dar continuidade aos estímulos diários em casa, seguindo as orientações da equipe multidisciplinar.


5. O AVC pode causar perda de memória?

Sim, dependendo da área do cérebro afetada. 

A reabilitação cognitiva, conduzida por neuropsicólogos e terapeutas ocupacionais, foca em exercícios de memória, atenção e planejamento para ajudar o paciente a recuperar essas funções essenciais.


Enriqueça seus conhecimentos através deste conteúdos:

Riscos do micro AVC: Fique atento






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